Janeiro 15, 2009

Gente feia


"Com uma flûte de champagne nas mãos (de quatro garrafas de Veuve Clicquot apreciadas com o marido) e os pés na areia da praia do Curral, em Ilhabela, litoral norte de São Paulo, a editora de moda paulista Ana Luisa Togni, 35, passou um Réveillon especial. 'Não era qualquer um que entrava na festa', descreve. 'Só gente bonita, de roupas, bolsas, óculos chiques. Não tinha ninguém feio. Foi lindo. Claro, nada a que não estivéssemos acostumados'. Pois Ana não pisa na areia do litoral sul. 'Pra gente não tem o Guarujá, mas o [hotel] Casa Grande', diz a exigente cliente VIP. 'Se chego à praia, é imprescindível guarda-sol esperando e garçom antevendo o que quero.' No litoral norte, diz, encontrou mimos que valem o recibo de sete noites no hotel mais caro. 'Aqui sabem que eu bebo bloody mary e trazem todo dia. Você nem para para pensar no custo. Porque tomar drinque vendo o mar não tem preço.' Custou R$ 16 mil."


(Trecho de matéria publicada na Folha de São Paulo, domingo - 11/01/09)


Na fotomontagem, gente feia. Em sentido horário, do alto à esquerda: criança em Darfur (Sudão); homem e filha buscam comida no lixo (Paraisópolis - São Paulo); criança na República do Malawi (África); habitantes ilhados em Gonaives (Haiti).

Julho 30, 2008

Individual X coletivo


Transcrevo -devidamente autorizado pelo autor- excelente artigo, que ao comentar a recente polêmica criada pela assim chamada "Lei Seca", vai muito mais fundo, analisando a eterna e inglória batalha do coletivo contra o individual:

Bafômetro para os outros...

Por Elias Lehnen,
técnico judiciário auxiliar do TJ-SC.

É válida toda e qualquer manifestação em defesa dos direitos constitucionalmente garantidos... Ainda mais vindas de renomados juristas e doutrinadores de nosso país. Mais válidas, ainda, se alicerçadas sob o manto da isenção e da imparcialidade. Pareceres jurídicos não contratados por cervejarias conhecidas ou opiniões pessoais em prol da cachacinha no boteco da esquina antes de voltar para casa dirigindo (afinal é só para "firmar" o pulso)...

Em que pese os argumentos românticos, do vinho com a querida esposa no jantar e a "gelada" após o futebol, o que de fato interessa para nós?

Quando vamos deixar de ser um país hipócrita e individualista? Levantamos a bandeira diariamente por uma legislação mais rígida igual a qualquer país dito de primeiro mundo e quando ocorre em nossa "casa", quando somos chamados a abdicar de prazeres individuais em prol da coletividade, somos os primeiros a buscar a barra da saia da nossa querida Constituição, procurando argumentos que defendam nossas "necessidades", disfarçando-os como uma causa "coletiva" a ser defendida.

No presente choque de direitos constitucionalmente garantidos, o direito à vida têm sido a menor das preocupações. Não interessa se foram registradas quedas no índice de acidentes, ou até incríveis 63% a menos de registro de óbitos no IML de São Paulo em razão do endurecimento da lei.

É mais interessante defender idéias utópicas de longo a infinito prazo, como aumentar o número de policias nas rodovias com recursos oriundos de um fundo extraordinariamente volumoso. Ou na presente realidade, tirá-los do combate ao crime para levar pessoas embriagadas para a delegacia, agüentando ofensas de toda sorte, sabendo, ao final, que aquele mesmo indivíduo que tirou uma viatura de circulação (se tiver sorte, o policial, de não ter que lavar depois) ao final sairá livre, uma vez que não causou acidente.

Tirando as vítimas indefesas, é uma parcela de bêbados inconseqüentes que deixam de ocupar os leitos daqueles que, por qualquer outra razão, precisam dos mesmos, melhorando a prestação de outra garantia abraçada pela constituição, a saúde pública e de qualidade.

Nossa melhor garantia é realmente o direito de não produzir prova contra si mesmo? E o Estado, não tem direito de produzir prova em favor do povo, ao impor mais um requisito legal para que haja um trânsito mais sóbrio?

Se minha abstinência do bom vinho dominical salvar uma vida, que assim seja!

A coragem de lutar


LEI Nº 11.756, DE 23 DE JULHO DE 2008
DOU 24.07.2008

Concede anistia post mortem a João Cândido Felisberto, líder da chamada Revolta da Chibata, e aos demais participantes do movimento.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º É concedida anistia post mortem a João Cândido Felisberto, líder da chamada Revolta da Chibata, e aos demais participantes do movimento, com o objetivo de restaurar o que lhes foi assegurado pelo Decreto nº 2.280, de 25 de novembro de 1910.

Parágrafo único. (VETADO).

Art. 2º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 23 de julho de 2008; 187º da Independência e 120º da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Nelson Jobim
Guido Mantega
Paulo Bernardo Silva

Com a sanção a esta Lei, o Presidente Lula faz justiça ao líder da "Revolta da Chibata". De forma bem resumida, a Revolta da Chibata foi o movimento deflagrado por algumas praças (militares de graduações inferiores) da Marinha brasileira, em 1910, por não suportarem mais as punições que recebiam em função de transgressões (ou supostas transgressões) que cometiam. A punição mais comum era a aplicação de chibatadas. Os marinheiros assumiram o controle de dois encouraçados, e, ancorados na Baía de Guanabara, ameaçaram bombardear a cidade do Rio de Janeiro. Após rendição negociada, muitos foram expulsos da Marinha, e, posteriormente, presos.

Não pude deixar de recordar uma ótima música, de João Bosco e Aldir Blanc, intitulada "Mestre-Sala dos Mares" (música composta em homenagem ao líder da revolta, João Cândido). Em determinado trecho, fazendo alusão às chibatadas (e ao sangue derramado pelos marinheiros), Bosco e Blanc compuseram:

"Rubras cascatas jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas"

Este triste episódio de nossa História é significativo. A reabilitação de João Cândido e de seus companheiros, 98 anos após o fato, mostra que, afinal, lutar (as grandes e as pequenas lutas) vale a pena, e que a acomodação covarde não é condizente com a grandeza da vida humana. Como ensina outro trecho da música,

"Glória a todas as lutas inglórias, que através da nossa História não esquecemos jamais"

P.S.: A autora do Projeto de Lei foi a senadora Marina Silva. Ressalvadas excrescências como os Barbalhos da vida, pessoas como Marina Silva, Chico Mendes e Jefferson Peres sugerem que a região Norte do país é grande formadora de Homens (lato sensu) com "H" maiúsculo.

Junho 10, 2008

Asneiras mal redigidas do quarto mundo.


Em Santa Cruz, na Bolívia, há a seguinte lei:

"É ilegal para um homem ter relações com uma mulher e sua filha ao mesmo tempo."

Pergunto: filha de quem? Da mulher? Do próprio homem? De quem estiver lendo a lei?

Sem chapéu, no Panamá.


A edição nº 919 da revista EXAME (junho de 2008) traz uma esclarecedora reportagem a respeito de uma suposta pujança do Panamá (ele mesmo, o país do canal).

Entre outros pontos "positivos" do país, transcrevo um trecho sugestivo:

"Segundo a nova legislação, aprovada em agosto, as empresas que instalarem suas sedes regionais no país estarão isentas do pagamento do imposto de renda".

Este é um dos mais significativos exemplos do raciocínio excludente das ideologias liberais (envergonhadas ou festivas): em prol da empregabilidade de algumas centenas de cidadãos (a instalação das sedes das empresas), aprofunda-se a miserabilidade de alguns milhões de semi-cidadãos (a isenção do imposto de renda, e, conseqüentemente, o menor investimento social).

Só falta ficarmos sabendo que a Alstom vai construir alguma linha de metrô por aquelas bandas.

Janeiro 16, 2008

Um bicho geográfico


Estudo publicado recentemente na revista Nature Geoscience revela que aumentou muito o ritmo do degelo na Antártida. Até aí, nada de novo. O curioso é que, segundo os pesquisadores, o degelo deu-se principalmente no oeste daquele continente.

Confesso que a expressão "oeste da Antártida" deixou-me confuso. O pólo sul terrestre fica na Antártida. Partindo-se daquele ponto, o pólo geográfico exato, para qualquer lado que se dê um passo estar-se-á andando para o norte. Ora, a partir desse primeiro passo, já temos, em oposição, o sentido sul (basta desfazer o passo). E o oeste, para que lado fica? Para a esquerda do norte, claro. Mas uma coisa é saber qual é o sentido oeste, e outra é saber onde fica a região oeste de um continente que tem o pólo sul. Imagino que a Antártida deva dividir-se em leste e oeste tendo como referência o meridiano de Greenwich e o seu oposto (uma vez que aquele famoso semicírculo é apenas isso: um semicírculo). Mas é apenas uma suposição.

(Eu não deveria ter matado aquelas aulas, nos perdidos anos 70.)

Dezembro 21, 2007

Asneiras do primeiro mundo (2)


Lei vigente na Noruega:

"Se você está em Cork, e vê um escocês, ainda é legal mirá-lo com arco e flecha, exceto nos Domingos."

Sem comentários...

Dezembro 20, 2007

Um país heterodoxo


Tenho o péssimo hábito de reler revistas antigas. Ao folhear uma delas, hoje, relembrei uma frase genial, do genial Tim Maia:

"O Brasil é o único país onde prostituta tem orgasmo, cafetão tem ciúme, traficante é viciado e... pobre é de direita."

P.S.: Deveria haver alguma vedação constitucional que proibisse determinadas pessoas de nos deixar cedo demais. Tim Maia morreu em 1998, com apenas 55 anos de idade. Ele não podia ter feito isso conosco.

Novembro 20, 2007

Santo Ofício Inc.


Ainda que eu concorde com algumas idéias de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, discordo no atacado. Não há espaço, hoje, para a tolerância a tendências autoritárias.

No recente episódio, contudo, em que ele foi "convidado" a se calar pelo rei da Espanha, opino em sentido contrário à maioria. Aquela cena é a súmula de 500 anos de submissão à qual estamos, os países pobres em geral e os latinos em particular, sujeitos com relação ao "primeiro mundo". Assim como os espanhóis, portugueses, franceses e ingleses de outrora mandavam-nos calar, hoje esse papel cabe às grandes corporações transnacionais e aos interesses das principais indústrias que movem a economia mundial: armas e drogas (transitoriamente representados, pró e contra, respectivamente, pelos Estados Unidos).

Lamento, mas não há o que aplaudir no ato do rei. Exultar quando um aristocrata europeu submete um governante latino é mais uma demonstração da prevalência da Síndrome de Estocolmo.

P.S.: "Por que não se cala?" ((http://www.youtube.com/watch?v=pdc2ZlzhIJs)

Sobre coelhos


As páginas amarelas da "revista" Veja desta semana (edição nº 2035) apresentam entrevista com Eric Nadelstern, que é "CEO" ("Chief Executive Officer", na sigla em inglês - uma espécie de "principal executivo") da Secretaria de Educação da cidade de Nova York. O entrevistado apresenta suas propostas -muitas já em implementação por aquelas bandas- e opiniões com relação à educação. Embora algumas propostas sejam razoáveis, não pude deixar de ficar estarrecido, entre outras coisas, com o que segue:

1) Anualmente, são realizados testes entre os alunos das diversas escolas municipais daquela metrópole. Digamos que a escola "A", ao final do ano letivo, tenha desempenho superior à escola "B". No ano seguinte, a escola "A" vai receber mais verbas, e a escola "B" receberá menos! Ora, se a escola "B" apresenta deficiências, não é ela que deveria ser alvo de maiores investimentos? Que meritocracia tacanha é essa?

2) Deve-se, segundo ele, privilegiar o ensino das ciências. Esta lógica está atrelada à obsessiva busca pelo sucesso nos âmbitos comercial, industrial, financeiro e arrabaldes: formemos bons engenheiros, bons economistas, bons executivos. Discordo radicalmente dessa marginalização que está sendo imposta às ciências humanas. Precisamos tanto (ou mais!) de sociólogos, filósofos e cientistas políticos quanto de médicos, advogados e arquitetos. E pensar que o veto à inclusão da Sociologia e da Filosofia no currículo do ensino médio no Brasil foi assinado pelo "Príncipe das Elites", o inominável FHC, que é, por formação... sociólogo!

3) Os alunos da cidade de Nova York são estimulados a estudar e a aprender por prêmios em dinheiro! Não é enfatizada a importância do aprendizado, da cultura... o que importa ao aluno é aprender o máximo possível, mesmo que de forma fugaz, para poder ser premiado. Assim, ele poderá comprar seu iPod ou seu Nike. São coelhos, correndo atrás de cenouras.

No fundo, somos todos coelhos, correndo atrás de cenouras, preocupados em ter a melhor cenoura. Se não for possível, que seja a nossa cenoura melhor que a do nosso vizinho, da cunhada, do colega de trabalho. É nisso que nos transformamos, após as revoluções política e econômica ocorridas há cerca de 200 anos: ridículos coelhos, ávidos por ter (e, principalmente, por poder exibir) grandes e reluzentes cenouras.

P.S.: O fato de eu insistir em ler a desonesta revista Veja deve-se exclusivamente à necessidade de estar bem informado a respeito do que dizem e pensam seus "habitués", até mesmo para poder replicar.

Novembro 08, 2007

Asneiras do primeiro mundo



Lei vigente na Dinamarca:

"Tentar escapar da prisão não é ilegal, no entanto, se for pego terá que cumprir o resto da condenação."

Ah bom... imaginei que, caso recapturado, o fugitivo pudesse ir embora pra casa.

Outubro 29, 2007

Melhor ser surdo...


No último dia 22, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, propôs a legalização do aborto como estratégia de longo prazo para conter a criminalidade naquele estado. Segundo ele, a alta taxa de natalidade observada nas favelas cariocas seria uma autêntica "fábrica de produzir marginal".

Não sou radicalmente contrário ao aborto, mas discordo frontalmente do pensamento neo-nazi-malthusiano do infeliz governador. Se, contudo, a proposta for levada a sério (o que seria um absurdo em qualquer lugar, exceto no Brasil), apresento minha contribuição: que seja estimulado o aborto entre as mães da elite. Tal providência conteria, a longo prazo, entre outras mazelas, os índices de corrupção, a quantidade e a magnitude dos crimes financeiros. Como efeitos colaterais benéficos, teríamos ainda a redução na proliferação das próprias favelas (quiçá sua retração) e a erradicação da geração de idéias estapafúrdias por políticos medíocres.

Setembro 30, 2007

Para Talita


Lutamos contra tudo. Vencemos.

Lutamos contra o preconceito, vencemos.
Lutamos contra normas odiosas, vencemos.
Lutamos contra olhares oblíquos, vencemos.
Lutamos contra palavras ofensivas, vencemos.
Lutamos contra idéias desonestas, vencemos.

Lutamos sem saber que lutávamos, vencemos sem saber que vencíamos.
Não notávamos a luta, não notamos a vitória. Só notávamos, só notamos, o amor.

Não lutamos contra o amor. Não há como vencê-lo.
Eu te amo. Você me ama.
Eu não posso te vencer, você não pode me vencer.
O amor, ele nos venceu. Sem lutar.

Eu te amo. Você me ama.
Eu te amo.
Eu te amo.

Março 05, 2007

Mundo animal

Fevereiro 27, 2007

Paulo Francis, a ignorância, e pequenas felicidades passageiras.


Dia quatro de fevereiro foram completados dez anos da morte do jornalista Paulo Francis.

Quando eu tinha meus vinte e poucos anos, eu detestava Paulo Francis, mas não sabia por que. Hoje, aos quarenta e poucos, eu entendo aquela birra: naquela época, ele dizia coisas com as quais eu concordava, e que eu mesmo gostaria de ter dito, mas dizia de uma forma absurdamente arrogante. Hoje eu detesto Paulo Francis, porque ele pensava e dizia coisas com as quais eu não concordo mais, e que acho quase teratológicas.

Independentemente de meus vários ódios pelo Paulo Francis, li, recentemente, uma frase dele que considero lapidar:

"...sei que sou ignorante, mas tenho a base para deixar de ser naquilo que me interessar."

Faço minhas essas palavras. É maravilhoso o fato nós termos (todos nós, privilegiados que fomos por uma boa educação) meios para aprender quase tudo o que desejarmos. Lembro-me bem, por exemplo, que há aproximadamente um ano fui tomado por uma súbita vontade de ler a respeito de cosmologia. Em cerca de dois meses passei a freqüentar um restrito grupo: o grupo dos que sabem algo maior que o nada (mas não muito maior) a respeito dessa ciência tão hermética e assustadora. Assim como aconteceu quando aprendi a respeito do Ciclo de Krebs, da Quarta Cruzada ou da Segunda Lei da Termodinâmica, acabei esquecendo boa parte do que aprendi (na verdade, esses três exemplos eu esqueci por completo).

Aprender sem compromisso: essa é uma das atividades mais fascinantes e agradáveis que existem.

Há, por outro lado, aquelas coisas que aprendemos e não esquecemos mais. Isso normalmente ocorre com aquilo que realmente gostamos. Já foi dito que "conhecer é uma forma de amar". Há quem diga, por exemplo, que eu escrevo bem. Se é verdade, é porque amo a leitura, e não porque ame escrever. Como os cães de Pavlov, eu ajo por puro condicionamento. Como gosto de ler, acabo aprendendo a utilizar boas palavras, de uma forma boa, com os grandes escritores que leio. Quando refiro-me a "grandes escritores", incluo desde os clássicos da literatura que me são intelectualmente acessíveis (poucos, diga-se) até jornalistas, e mesmo pessoas comuns, como nós, que produzem textos interessantíssimos em "blogs", internet afora. Aprendo com eles e reproduzo quando escrevo. Traficante de palavras, atravessador de estilos, é o que sou.

Independentemente de os nossos interesses serem fugazes ou eternos, reitero o prazer de saber que podemos aprender quase tudo, quando quisermos, se quisermos. Graças a esse potencial, a ignorância nunca foi tão suave e agradável!

Paulo Freire,o maior educador brasileiro de todos os tempos, já dizia que a educação é arma fundamental para a libertação, especialmente quando essa educação nos dá instrumentos para optar, para decidir.

No mínimo, somos felizes por saber que podemos nos libertar de selecionadas ignorâncias pontuais, que podemos aprender a discernir (e optar!) entre Paulo Francis e Paulo Freire.

Fevereiro 22, 2007

Torturas vernáculas


Quarta-feira, quase meia-noite. A velha insônia de sempre, minha companheira fiel.

Após haver lido coisas “úteis”, ininterruptamente, desde as oito da noite, resolvi descansar a mente (e tentar forçar o sono) folheando a esmo o Dicionário de Erros Correntes da Língua Portuguesa. Como sempre, abri em uma página aleatória e comecei a ler os verbetes. A página em que abri fazia parte da letra “D”, e –não faço idéia do porquê- após cerca de quinze minutos eu estava na letra “I”, sem que tivesse feito esse trajeto de forma seqüencial.

De repente, deparo com o verbete “Infinitivo”. Lembrei-me, imediatamente, de ter participado de uma discussão, há aproximadamente um mês, em uma comunidade sobre a língua portuguesa no Orkut, a respeito de ser correta a flexão do infinitivo “crescer” na frase “O que vocês vão ser quando crescerem?”. Naquela ocasião, eu opinei pela não flexão, tendo afirmado que o correto seria “O que vocês vão ser quando crescer?”. Fui voto vencido e aceitei a derrota, mas a dúvida ficou me atormentando desde então.

Voltando ao presente, vasculhei, faminto, o verbete. Quando eu estava quase convencido de que havia opinado corretamente, cismei de conferir no Dicionário de Questões Vernáculas. Foi a minha desgraça. Nesta obra, aprendi (ou recordei, sei lá!) que “Quando vocês crescerem” é futuro do subjuntivo, e não infinitivo pessoal. E, para meu pavor, recordei que o futuro do subjuntivo pressupõe, é claro, a flexão.

Levei, portanto, um mês para descobrir que estava errado. Antigamente, eu descobria meus inúmeros erros muito mais depressa. Temo estar chegando o tempo em que eu não vou mais conseguir identificar minhas próprias falhas.

Um velho chato, errado e teimoso – é o futuro que me aguarda.

Após essa decepção inicial, fui parar, sem querer, na letra “P”. Cheguei ao verbete “papel”. Aprendi que “papel almaço”, “papel carbono”, “papel celofane”, “papel crepom”, “papel cuchê”, “papel jornal” e “papel machê” escrevem-se sem hífen; mas “papel-bíblia” e “papel-moeda” são hifenizados.

Essa constatação, da amplitude da minha ignorância (e, muito mais do que isso, da impossibilidade de sua reversão – a menos que me fossem implantados uns quatro pentes de memória no cérebro) já me deixou ainda mais desanimado.

O golpe final foi quando li, de relance, o verbete “papalvo”. Curioso, fui ler o seu significado, e descobri que “papalvo” significa “atoleimado” ou “lorpa”.

Quase chorei.

Tomei o cuidado de escrever essa triste passagem munido das duas obras citadas, além do Manual de Redação da Folha de São Paulo. Foi graças a eles que observei que “quarta-feira” leva hífen, assim como “meia-noite”; que o “porquê” que usei no segundo parágrafo escreve-se assim mesmo (e não “por que”, “por quê” ou “porque”); que “de repente” é o correto, e não “derrepente”; que em “O que vocês vão ser quando crescerem” o “que” não é acentuado, e que só seria se estivesse no final da frase.

Bateu o desespero, e o sono.


Dicionário de Erros Correntes da Língua Portuguesa – João Bosco de Medeiros e Adilson Gobbes – Editora Atlas
Dicionário de Questões Vernáculas – Napoleão Mendes de Almeida – Editora Ática
Manual de Redação da Folha de São Paulo - Publifolha

Fevereiro 04, 2007

Questão de ordem


- Mesa, solicito um aparte!


-Aparte concedido, nobre colega. Por favor, os demais nobres colegas poderiam prestar atenção? Sim, todos os 4 presentes no plenário! Obrigado.


-Obrigado, Sr. Presidente, nobre colega Alonso Mendes. Hein? Ãhn, claro... perdão. Afonso Meira. Nobre colega Presidente, demais nobres colegas do plenário: gostaria de esclarecer que, assim que forem superados certos obstáculos técnico-logísticos, este humilde escriba voltará a derramar suas inconsistentes e temerárias letras sobre os alvos campos deste web-log. Jamais trairei a confiança (e jamais deixarei de tirar proveito da inadvertida atenção) de todos os meus 3 (e)leitores. Obrigado. Ei! Obrigado!


-Zzzzzz....

Novembro 02, 2006

Taco, ou a negação das minhas mortes precoces.


Cada vez que fazemos algo pela última vez em nossas vidas, morremos um pouquinho.

Houve uma bela tarde de sol, perdida há quase três décadas, em que joguei minha última partida de taco, na rua em que eu morava. Invoco o jogo de taco, pois foi essa perda, de reconhecimento muito tardio, que me levou até a frase com a qual iniciei este texto. Eu adorava jogar taco -era uma atividade quase obrigatória para aquele bando de adolescentes metidos. Jogávamos com habilidade, chegamos até a desenvolver "tacos especiais". Hoje, não mais jogo taco.

Houve um dia -triste dia- em que pela última vez eu brinquei com o Spocky, meu primeiro Cocker Spaniel, antes de sua morte. Cheguei de viagem, no início da tarde, ao sítio da família onde ele já estava. A viagem foi cansativa, então eu brinquei um pouquinho com ele (muito pouco!) e fui deitar. Quando acordei, ele estava morto -foi atropelado minutos antes. Hoje não há mais o Spocky.

Há, contudo, uma diferença fundamental e flagrante entre as duas "mortes" que citei acima. Enquanto a segunda "morte" (a perda do Spocky) é irreversível, a primeira não é. O que é que me impede de, ainda que já burro velho, jogar uma partida de taco com amigos? Quantas "mortes" nós podemos reverter, quantas ressureições podemos nos dar de presente? O que nos impede de reunir um grupo de amigos e fazer coisas que fazíamos quando crianças, quando adolescentes? Por que não um "esconde-esconde"? Qual a contra-indicação para um "bailinho de garagem"? Qual é a grande diferença entre essas atividades e uma "noite do flash-back" em alguma danceteria da moda? Não é a mesma coisa, ou seja, o desejo de resgatar alegrias que ficaram para trás?

Há o que nos atrapalhe. Convenções sociais nos restringem. Imagine só: um homem maduro, sério e circuspecto, jogando taco na rua? Onde já se viu? Enlouqueceu? Respondo: ao contrário! Enlouqueceu quem não tem vontade de reviver as coisas boas de sua vida. Enlouqueceu quem cuida de se levar muito a sério.

O tempo também nos serve de pretexto. Não há tempo para essas coisas, não é mesmo? Conversa fiada! Quanto tempo perdemos em atividades inúteis, como por exemplo assistir a programas idiotizantes na TV?

Decidi que só vou me conformar com as mortes irreversíveis. Assim como o Spocky não voltará mais a me lamber, nunca mais vou poder ouvir o meu avô, que já se foi, contar as histórias da sua Itália natal. Chegará uma dia, num futuro que espero distante, em que efetivamente não vou mais reunir condições físicas para jogar uma partidinha de futebol. Essas mortes devem ser encaradas com alguma serenidade, ainda que muitas perdas (especialmente quando perdemos pessoas que amamos) fiquem eternamente nos assombrando. Como eu disse, morremos aos pedaços, aos trancos.

Quanto às mortes reversíveis, decidi que vou ressucitar tudo aquilo que eu puder. Eu e um grande amigo, com quem converso muito a respeito dessas sandices, já nos acertamos: vamos organizar uma partida de taco (quem sabe, a primeira entre muitas!). Outras ressurreições virão. Que se lasquem os homens e mulheres sérios e de respeito que, observando quatro marmanjos praticando uma brincadeira supostamente infantil, balançarão negativamente a cabeça em sinal de desprezo -antes de apertar o passo para tirar um extrato no banco e planejar seus investimentos.

Definitivamente, resolvi que nunca mais vou me levar muito a sério. Isso mata, e eu não quero ficar morrendo todos os dias.

Outubro 01, 2006

Sintomas, ou como as novas manias acabam nos delatando.


Li, há cerca de duas semanas, uma micro-resenha de uma obra de Schopenhauer, em um jornal de São Paulo. A obra analisada era "Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão". Como eu quase nunca tenho razão, resolvi comprar o livro (uma providência, portanto, que seguramente aumentaria minhas chances de sobreviver -social, funcional e profissionalmente). Além disso, Schopenhauer -com seu pessimismo ao mesmo tempo deliberadamente ranzinza e deliciosamente mordaz- é leitura sempre agradável.

Entrei no sítio de uma grande livraria, onde costumo comprar livros "online", e logo encontrei o alvo de minha cobiça. Ao lado, porém, a livraria anunciava (a título de sugestão, claro) outra obra do mesmo autor. Tratava-se de "A Arte de Escrever". Após ler a nano-resenha disponível, resolvi comprar também. Recomendo ambos.

Transcrevo um trecho desta segunda obra, trecho que me fez (de novo!) ficar matutando a respeito do tempo, dos anos, do envelhecer:

"A pena está para o pensamento como a bengala está para o andar. Da mesma maneira que se caminha com mais leveza sem bengala, o pensamento mais pleno se dá sem a pena. Apenas quando uma pessoa começa a ficar velha ela gosta de usar bengala e pena".

Nunca usei a pena e não sou usuário supranormal da caneta; mas sou dependente químico, físico e psicológico da pena do século XXI: a tecla.

Não uso, ainda, a bengala.

Cuncluo, portanto, que já estou meio velho.

Setembro 20, 2006

Reencontro, ou o dia em que fiz a viagem que sempre sonhei.


Há alguns dias participei de um encontro, em um hotel-fazenda nas redondezas de São Paulo, de minha turma da faculdade de odontologia. O encontro foi uma comemoração pelos 20 anos de formatura. De uma turma que originalmente era composta por 83 alunos, compareceram ao encontro cerca de 30 colegas - além de muitas das suas famílias.

Em primeiro lugar, constatei que caiu por terra uma de minhas "certezas" mais sólidas: a certeza de que a odontologia não faz bem à saúde. Em vez de um bando de tristes e decrépitas figuras; infelizes, patológicas, psicóticas, depressivas e ranzinzas, que eu imaginava que fosse encontrar; o que vi foi um grupo extremamente jovem, alegre, vivo, agradável e confiante. Amigos que durante aqueles anos do curso de graduação compartilharam comigo toda a gama de angústias de jovens inseguros quanto aos seus próprios futuros, foram -ao longo daquelas poucas horas- deliciosas companhias no exercício da reativação da memória de passagens bonitas ou divertidas de duas décadas atrás.

Consegui, naquele dia, fazer uma viagem que é sonhada por todos e realizada por poucos: a viagem de volta no tempo, mas carregando a consciência, a experiência e a cognição de nossa vida presente. Passei momentos preciosos, que espero poder repetir com muito maior freqüência no futuro, aproveitando tudo o que aqueles amigos tão queridos têm de melhor (e olha que é muita coisa!), aprendendo tudo o que eu não aprendi com eles durante os anos da graduação -devido à minha inexperiência, ao meu orgulho e ao meu egoísmo.

Meus amigos, minhas amigas: eu já disse isso a vocês em um fórum privado, mas quero repetir a todo o volume neste espaço público: EU AMO MUITO TODOS VOCÊS!