
Quarta-feira, quase meia-noite. A velha insônia de sempre, minha companheira fiel.
Após haver lido coisas “úteis”, ininterruptamente, desde as oito da noite, resolvi descansar a mente (e tentar forçar o sono) folheando a esmo o Dicionário de Erros Correntes da Língua Portuguesa. Como sempre, abri em uma página aleatória e comecei a ler os verbetes. A página em que abri fazia parte da letra “D”, e –não faço idéia do porquê- após cerca de quinze minutos eu estava na letra “I”, sem que tivesse feito esse trajeto de forma seqüencial.
De repente, deparo com o verbete “Infinitivo”. Lembrei-me, imediatamente, de ter participado de uma discussão, há aproximadamente um mês, em uma comunidade sobre a língua portuguesa no Orkut, a respeito de ser correta a flexão do infinitivo “crescer” na frase “O que vocês vão ser quando crescerem?”. Naquela ocasião, eu opinei pela não flexão, tendo afirmado que o correto seria “O que vocês vão ser quando crescer?”. Fui voto vencido e aceitei a derrota, mas a dúvida ficou me atormentando desde então.
Voltando ao presente, vasculhei, faminto, o verbete. Quando eu estava quase convencido de que havia opinado corretamente, cismei de conferir no Dicionário de Questões Vernáculas. Foi a minha desgraça. Nesta obra, aprendi (ou recordei, sei lá!) que “Quando vocês crescerem” é futuro do subjuntivo, e não infinitivo pessoal. E, para meu pavor, recordei que o futuro do subjuntivo pressupõe, é claro, a flexão.
Levei, portanto, um mês para descobrir que estava errado. Antigamente, eu descobria meus inúmeros erros muito mais depressa. Temo estar chegando o tempo em que eu não vou mais conseguir identificar minhas próprias falhas.
Um velho chato, errado e teimoso – é o futuro que me aguarda.
Após essa decepção inicial, fui parar, sem querer, na letra “P”. Cheguei ao verbete “papel”. Aprendi que “papel almaço”, “papel carbono”, “papel celofane”, “papel crepom”, “papel cuchê”, “papel jornal” e “papel machê” escrevem-se sem hífen; mas “papel-bíblia” e “papel-moeda” são hifenizados.
Essa constatação, da amplitude da minha ignorância (e, muito mais do que isso, da impossibilidade de sua reversão – a menos que me fossem implantados uns quatro pentes de memória no cérebro) já me deixou ainda mais desanimado.
O golpe final foi quando li, de relance, o verbete “papalvo”. Curioso, fui ler o seu significado, e descobri que “papalvo” significa “atoleimado” ou “lorpa”.
Quase chorei.
Tomei o cuidado de escrever essa triste passagem munido das duas obras citadas, além do Manual de Redação da Folha de São Paulo. Foi graças a eles que observei que “quarta-feira” leva hífen, assim como “meia-noite”; que o “porquê” que usei no segundo parágrafo escreve-se assim mesmo (e não “por que”, “por quê” ou “porque”); que “de repente” é o correto, e não “derrepente”; que em “O que vocês vão ser quando crescerem” o “que” não é acentuado, e que só seria se estivesse no final da frase.
Bateu o desespero, e o sono.
Dicionário de Erros Correntes da Língua Portuguesa – João Bosco de Medeiros e Adilson Gobbes – Editora Atlas
Dicionário de Questões Vernáculas – Napoleão Mendes de Almeida – Editora Ática
Manual de Redação da Folha de São Paulo - Publifolha